A NOVA PEDIDA NO PRATO


“Se você é dos que contam o valor protéico e calórico antes de dar a primeira garfada, esqueça o churrasco de domingo, o bifarro, o lombinho. Esqueça até a modesta omelete. A grande medida nutricional e gastronômica do futuro próximo, quase chegando, são os insetos.

 

Aliás, já os estamos comendo, embora anônimos. Sabe aquele lindo tom vermelho de certas gelatinas? O avermelhado dos molhos de tantas comidas congeladas? O delicioso tom do ragu de pote? Procure no rótulo. Se estiver escrito “corante carmim”, é ela, a pobre cochinila, moída para dar, com o vermelho de sua casca, aparência apetitosa às nossas comidas.

 

Usava-se anteriormente um corante químico. Quando se descobriu que acarretava problemas para a saúde, os olhares se dirigiram para a cochinila, há séculos destinada ao martírio. Portadora de ácido carmínico, passa pelo almofariz desde a Idade Média, transformada em corante cobiçado por todos os pintores. Mas até a honra de ter se nome no rótulo lhe é negada, afastaria os consumidores.

 

Breve, tudo que plantarmos será insuficiente para nos alimentar. E não nos bastarão as vacas, as galinhas, nem os peixes que produziremos em viveiros, porque os do mar serão poucos. Como os pássaros aos quais São Francisco se dirigiu dizendo que, embora não plantassem nem colhessem, o Criador lhes dava tudo que necessitavam, comeremos grilos, larvas, formigas.

 

Barrinhas semelhantes às de cereais que mastigamos se alegria estão sendo avaliadas, para ajudar a combater a subnutrição do mundo. Mas não são de cereais. Na sua fórmula secreta, criada por um americano, os elementos fundamentais são amendoim e pó de insetos. Que insetos, não é revelado.

 

Comi escorpião, certa vez, e achei gostoso. Até repeti. Gostoso, exatamente, não. Era sobretudo agradável ao paladar, porque crocante, parente nem tão distante de qualquer camarão magro e frito. Isso foi na china, é claro, onde escorpião é iguaria servida em poucas unidades, enfeitando outros pratos. Quando jovem, nem me passou pela cabeça comer o escorpião gordo e pálido que atravessou a sala da Mansão das Lajes, em Ouro Preto, onde, jovens amigos em grupo, andávamos descalços. Faltou-me imaginação.

 

Na França, um sujeito imaginoso e com boa visão empresarial está criando várias espécies de insetos para fins alimentícios e gastronômicos. Produz até pirulitos de larvas para as crianças. Seus animais, digamos assim, são vendidos frescos, ou seja, vivos, ou embalados à vácuo, para conservação mais longa. Ele recomenda vermes fritos, para servir com o drink, em lugar de chips. E gafanhotos torrados em lugar de croutons, na salada.

 

Em viagem à Coréia, num grande restaurante de parada de estrada, vi panelões de larvas sendo remexidas num molho escuro. Não me atrevi a provar. Eram gordas e, reviradas pela grande colher, pareciam em movimento. Mas, obviamente, havia muita clientela para elas.

 

Não deveríamos nos surpreender. Temos no Brasil um precedente que nos qualifica, somos comedores de tanajura. Meu pai, que em matéria de comida não se intimidava, chegou a fritar algumas, colhidas à beira do formigueiro em nossa fazenda. Diz que tinham um gosto estranho, de remédio. Mas é provável que, por falta de experiência, tenha errado no tempero.”   

Marina Colasanti – Jornal EM 23.02.2012